A década de 1970 é um período definidor para o Brasil. Primeira década completa sob o regime militar após o golpe de 1964, ela se inicia naquele que seriam os anos mais conturbados da nossa ditadura: em 1969, o regime militar de Emílio Garrastazu Médici se inicia em meio ao marco conhecido como Ato Institucional Nº5, ou apenas AI-5, que havia sido instaurado um ano antes pelo governo Artur Costa e Silva. Resultado de anos de medidas militares a fim de um autoritarismo total, o AI-5 significava a suspensão total dos direitos básicos e civis dos cidadãos brasileiros. Especialmente sob o comando de Médici, qualquer oposição pública ao governo, mesmo que pacífica, poderia resultar em perseguição, prisão e tortura em um cenário de terror.
Apesar do cenário de horror, o governo Médici realizou um alto investimento em propaganda, visando melhorar a imagem pública do regime para a população brasileira. Juntando isso com o “boom” da televisão nacional e a conquista do tri-campeonato mundial de futebol pela seleção brasileira em 1970, e havia um forte sentimento de nacionalismo presente em todo país.
Denominado de “anos de chumbo”, esse contexto de repressão social no Brasil serviu como pretexto para o surgimento e consolidação de movimentos culturais que marcariam a sua história. O alinhamento de arte junto a comentários políticos não era algo inédito e, através dessa junção, na transição da década de 1960 para 1970, diferentes artistas encontraram meios para expressar protestos à situação, utilizando-se do abstrato e metáforas como denúncia a crescente repressão encontrada.
O cinema brasileiro, por exemplo, vinha desenvolvendo uma identidade própria e nacional desde a década de 1950 com o surgimento de diretores como Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos e Roberto Farias. Obras como Rio, Zona Norte (1957), Barravento (1961) e Deus o Diabo na Terra do Sol (1963) são prestigiadas internacionalmente e essenciais para a formação de uma nova maneira de se pensar cinema no Brasil, dando início ao chamado “Cinema Novo”.
Apesar disso, no fim da década de 1960, tanto o Cinema Novo quanto seu contraste, o chamado “Cinema Marginal” de Rogério Sganzerla e outros, são afetados pela instauração do AI-5. A censura nos anos que iniciam a década de 1970 se intensificam, perseguindo diretores ainda presos a linguagens diretas e obrigando uma criatividade cada vez maior diante daqueles que buscavam fazer comentários críticos ou opressores.
Além disso, obras hoje consideradas clássicos do cinema marginal e pornochanchada, gênero que unia críticas sociais à sociedade brasileira junto a uma dose de erotismo, eram perseguidas e recortadas pelo Departamento de Censura. A ditadura, neste momento, afeta diferentes setores e, direta e indiretamente, altera a maneira de se fazer cinema no país, além de toda a história de nosso audiovisual, que se viu obrigado a se adaptar a um mundo de perseguição extensa.
Presente desde a década de 1950, o crescimento do espaço teatral brasileiro também foi bruscamente afetado pela instauração da ditadura e, posteriormente, do AI-5. Conjuntos como o Teatro de Arena e o Teatro Oficina, em São Paulo, têm suas origens em grupos de jovens universitários ligados a movimentos de esquerda como uma alternativa ao teatro padrão da época e uma tentativa de criação de uma identidade, dando prioridade a peças escritas por brasileiros e que representassem a realidade nacional.
Após o golpe militar de 1964, tais grupos chegam a realizar apresentações de protesto, como o show Opinião, no Rio de Janeiro, que juntava a arte do teatro com músicos e artistas plásticos, além de se tornarem espaço de resistência à ditadura. Porém, na medida que os anos se passavam e a repressão crescia, diversos líderes teatrais da cena Rio-São Paulo foram obrigados a se exilar, interrompendo bruscamente o que era até então um dos movimentos artísticos de resistência mais expressivos criado no Brasil.
Neste cenário, de manifestações culturais brasileiras de alcance popular, encontra-se a música, que também enfrenta forte censura em diferentes níveis e torna-se um marco cultural do combate ao regime ditatorial. Das mais diversas origens, artistas como Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil ganham notoriedade e passam a comandar o cenário da Música Popular Brasileira (MPB), representando o surgimento de uma identidade jovem nacional e tornam-se febre entre jovens universitários ao longo de todo país. Apesar disso, em momentos diferentes, os três sofrem com exílios na Europa para viverem em liberdade, fugindo do perigo a vida que a ditadura apresentava e trabalhando em obras musicais críticas sem sofrerem repressão.
Porém, apesar do exílio desses e de outros artistas, há também o caso daqueles que ficaram no Brasil durante esse período e, como Roberto Carlos. Atingindo fama nacional com o programa Jovem Guarda na década de 1960, o cantor, junto a seu amigo Erasmo Carlos, se consolida como um dos maiores artistas da América Latina devido a seus discos românticos, série de filmes de aventura e shows lotados, sendo denominado o “Rei da Juventude Brasileira”.
Porém, apesar de sua cordialidade e amizade com diferentes artistas da MPB, gênero até então contraposto ao de Roberto (o cantor capixaba tinha um estilo inspirado pelo iê-iê internacional, utilizando a guitarra elétrica como instrumento marcante), o artista manteve um posicionamento neutro durante todo o período ditatorial, mantendo boas relações com o exército brasileiro. Homem de negócios, Roberto andava com facilidade entre diferentes lados sem assumir uma posição de fato. Tal fato criou um contexto complexo que é discutido até hoje, tendo pessoas que acusam o cantor de ter sido conivente com o governo militar.
Diante dessa explicação e de um cenário cultural rico e desafiador, esse trabalho buscará entender a carreira de diferentes artistas brasileiros em um período de opressão política, iniciando-se com dois deles: Roberto Carlos e Chico Buarque, extremamente populares, porém de posicionamentos opostos. Através de pesquisas, entrevistas e acervos, será analisado o início de suas carreiras, a chegada dos anos 70, a imagem pública de cada um e o que compunham suas carreiras. A partir disso, é possível refletir sobre a importância desse período, inclusive como uma das bases da música brasileira, e discutir a importância do posicionamento que ocupa e representa até hoje.
Acadêmico | Jornalismo
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