EIS QUE CHEGA A RODA VIVA

Ao longo de sua vida, Chico Buarque pôde ser considerado muitas coisas: cantor, escritor, compositor e dramaturgo. Francisco Buarque de Hollanda nasceu em 19 de junho de 1944. Natural do Rio de Janeiro, o futuro artista cresceu em uma realidade de incentivos à arte e aos estudos. Seu pai, Sérgio Buarque de Holanda, foi um importante historiador brasileiro, autor do livro “Raízes do Brasil”, considerado um clássico do gênero que estuda as diferentes etnias que formaram o país. Já sua mãe, Maria Amélia Buarque, foi pianista e pintora. Essa junção fez com que Chico crescesse tendo uma alta exposição a diferentes expressões artísticas, além do mundo universitário no qual seu pai se fazia presente.

Devido à profissão de seu pai, renomado historiador no universo acadêmico, a família Buarque de Hollanda passou parte da década de 1950 entre cidades, o que acrescentou ainda mais a bagagem cultural do jovem Chico e de suas irmãs. Morando em São Paulo, a família se muda para Itália em 1953, após convite feito a Sérgio Buarque pela Universidade de Roma. Segundo o escritor Wagner Homem, autor do livro “Histórias de Canções: CHICO BUARQUE”, o jovem cantor, em sua infância, deixa o seguinte bilhete à sua avó pré-mudança para Europa:

 

“Vovó Heloisa. Olhe Vozinha, não se esqueça de mim. Se quando eu chegar aqui você já estiver no céu, lá mesmo veja eu ser um cantor de rádio.”

Passando dois anos na Europa, Chico desenvolve no país sua escrita, além de aprender inglês e italiano. Retornando ao Brasil em 1955, o jovem já começa a treinar possíveis canções: em 1959, Chico escreve Canção dos Olhos, música romântica inspirada diretamente por João Gilberto, seu grande herói da juventude e precursor da bossa nova. Em diferentes entrevistas, o artista define o álbum Chega de Saudade, de João Gilberto, como revolucionário em sua forma de enxergar a música. 

A pesquisadora, Márcia Distásio, dedica-se ao estudo da música brasileira há mais de 20 anos, sendo fundadora e escritora do site “História da MPB”, um dos portais digitais mais antigos do país, que trata exclusivamente de música nacional. Ela conta sobre a influência de uma criação intelectual na arte do Chico:

“A formação intelectual de Chico permeia toda sua obra. Suas letras são verdadeiros “contos musicados”, como “João e Maria” e “Construção”, onde narrativa e poesia se fundem. Referências literárias, como Macunaíma em “O Meu Amor”, e históricas, como em “Paratodos”, revelam seu repertório cultural vasto, enquanto o rigor formal – visível nos versos metrificados de “Roda Viva” – reflete sua herança acadêmica.

Como o pai, que analisou o país no livro Raízes do Brasil, Chico criticou desigualdades em obras como “Funeral de um Lavrador”, baseada em “Morte e Vida Severina”. Seu grande trunfo foi transformar esse arcabouço intelectual em arte emocionante e acessível.”

No início da década de 1960, em 1963, Chico ingressa na FAU – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo. Apesar disso, o golpe militar de 1964 instaura um sentimento de desilusão no jovem: já vivendo o ambiente universitário e com um crescente pensamento político, o estudante se sente desapontado com a situação do país e com o forte clima de repressão. Cada vez mais focado em suas composições e músicas, Chico largaria o curso em seu terceiro ano para focar em sua arte.

Participação nos festivais de música e ascensão nacional

Os anos que se seguiram marcam o crescimento de Chico como artista, consolidando seu nome como um cantor conhecido nacionalmente. Em 1964, com 20 anos, ele escreveria Tem Mais Samba, canção encomendada para o musical Balanço de Orfeu e que seria considerado o início de sua carreira como artista. A música é apresentada no clímax da história, que trata de uma disputa entre bossa nova e jovem guarda. A canção, posteriormente, seria incluída no primeiro álbum do cantor.

A partir de 1965 e coincidindo com os primeiros anos do regime militar, o Brasil encontraria o surgimento de festivais que deram destaque a diferentes artistas, mudando para sempre os rumos da música brasileira e dando cara ao gênero conhecido como Música Popular Brasileira (ou apenas MPB). Nesses festivais televisionados, as composições de diferentes artistas eram selecionadas através de uma peneira, com as músicas disputando entre si e sendo interpretadas por uma variedade de cantores em shows de auditório.

O evento pioneiro que deu início a esse movimento foi o Festival da Música Popular Brasileira, realizado em abril de 1965, organizado e transmitido pela TV Excelsior. Nele, Chico inscreveu sua composição Sonho de um Carnaval sem grandes pretensões. A música foi uma das 36 selecionadas para serem apresentadas ao vivo no Festival, sendo cantada por Geraldo Vandré, que se tornaria grande amigo de Chico nos próximos anos.

O festival foi vencido pela cantora Elis Regina ao interpretar “Arrastão”, composição de Vinicius de Moraes e Edu Lobo. Com Sonho de um Carnaval, Chico ficaria de fora do top 5, porém participar da composição é um dos pontos de partida essenciais para a sua carreira. Segundo Wagner Pessoa, apesar de algumas críticas, a música ainda conquistou seu número de fãs: “Houve quem gostasse. E alguém de grosso calibre, como o compositor e violonista Baden Powell, que ficara em segundo lugar com a “Valsa do amor que não vem”, em parceria com Vinicius de Moraes. Baden não escondia sua preferência pela canção, e seu apoio rendeu dividendos.”.

No ano seguinte, Solano Ribeiro, principal produtor da edição de 1965, foi dispensado pela TV Excelsior, firmando um novo acordo com a TV Record para a realização de um festival semelhante. Com isso, nasce a segunda edição do Festival de Música Popular Brasileira, realizada em 1966 e sucesso enorme de público. Nesta edição, a Record reuniria nomes históricos da MPB, com muitos deles tendo suas primeiras chances de brilhar em um palco nacional.

Neste ano, Chico Buarque saiu como um dos destaques do festival. Sua música “A Banda”, performada pelo artista junto a cantora Nara Leão, foi uma das duas músicas vencedoras desta edição junto a Disparada, composta pelo seu amigo Geraldo Vandré e performada por Jair Rodrigues. Em sua composição, escrita em um dia, Chico utiliza de um esquema de repetição de palavras e rimas para detalhar a história da passagem de uma banda, que anima o dia e momento das pessoas ao redor, até então entediadas.

Estava à toa na vida

O meu amor me chamou

Pra ver a banda passar

Cantando coisas de amor

A minha gente sofrida

Despediu-se da dor

Pra ver a banda passar

Cantando coisas de amor

O homem sério que contava dinheiro parou

O faroleiro que contava vantagem parou

A namorada que contava as estrelas parou

Para ver, ouvir e dar passagem…

 

A Banda (Chico Buarque, 1966)

Atingindo sucesso instantâneo, A Banda se tornaria um clássico da música brasileira. A canção sobreviveria a passagem do tempo, sendo regravada por diversos artistas em diferentes línguas e sendo lembrada até hoje como um divisor de águas no surgimento de Chico. A composição trata de assuntos que viriam a ser recorrentes na carreira do autor, com o mesmo retratando a rotina brasileira de forma monótona e utilizando a banda como metáfora para um escapismo social. Além disso, há a interpretação dessa rotina cinzenta como uma indireta para a ditadura militar presente no país e a forma que ela tirava a “cor” da vida do brasileiro médio.

Chico Buarque e Geraldo Vandré em foto publicada na revista Sétimo Céu de fevereiro de 1967. (Fonte: Instituto Tom Jobim)

A importância de tais festivais de música brasileira é enorme para a história da MPB. O sucesso dos eventos, ano após ano, serviu como forma de dar palco aos mais diversos artistas, muitos dos quais marcaram a música brasileira para sempre. Além de Chico, nomes históricos como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Maria Bethânia e os já citados Geraldo Vandré e Nara Leão atingem sucesso nesses programas, formando amizades que viriam a definir o que é o padrão de alta música nacional. A edição de 1967, ainda na TV Record, viria a ser a mais popular desse período.

Charge de 21 de outubro de 1966 satirizando o sucesso de “A Banda” através de Roberto Carlos, ídolo da Jovem Guarda. (Reprodução/Instituto Tom Jobim)

Com Chico, esse exemplo se demonstra através do sucesso estrondoso de A Banda, proporcionado por sua apresentação com Nara Leão em rede nacional. Após o festival, o disco de vinil compacto contendo a colaboração da dupla vendeu 100 mil cópias em uma semana, sendo o ponto de partida para a gravação do primeiro disco de estúdio do jovem artista, intitulado Chico Buarque de Hollanda.

Lançado pela gravadora paulista RGE, o disco de estreia do artista, com 26 minutos de duração, junta as duas canções apresentadas em festivais anteriores com composições como Pedro Pedreiro e Amanhã, Ninguém Sabe. O álbum também é marcado por sua famosa arte de capa: nela, junto a um fundo azul, temos a colagem de duas fotos retratos de Chico, uma com um sorriso e outra com um semblante sério.

Capa do álbum Chico Buarque de Hollanda, lançado em 1966. (Reprodução/Philips)

Em 2020, o Serviço Social de Serviços (ou SESC) de Pinheiros, em São Paulo, recebeu Chico para uma entrevista via Meet gravada para a série Muito Prazer, Meu Primeiro Disco, ontem recebem artistas para conversar sobre seus primeiros trabalhos em carreira. No papo, disponível por completo aqui, Chico comentou sobre como o processo de gravação de seu álbum que foi realizado no “automático”, lembrando-se do álbum como uma junção de composições que falta conceito, afirmando que não é um de seus trabalhos que mais tem o costume de revisitar:

“Naquela época, se gravava um compacto e depois um segundo compacto, todo mundo fazia isso. Depois, eles juntavam esses compactos todos e faziam aquela coisa do LP, mas não tinha uma unidade, um conceito. No meu caso pelo menos, eu não me lembro disso. Não tinha uma ideia: “Vamos fazer um LP”, não, era “Junta as músicas que estão aí”, outras que eu cantava na TV Record e pronto, vamos fazer.”

Zuza Homem de Mello (1933-2020) foi jornalista e produtor musical. Participando da conversa como um dos jornalistas convidados, Zuza, que trabalhava na TV Record durante o surgimento de Chico Buarque, lembra-se do álbum de 1966 com mais carinho que o artista, o caracterizando como um trabalho de hits e de fácil acesso a toda população:

“Contudo, esse disco traz sucessos incríveis. Hits, mesmo. Aquelas canções, todas eram cantadas. E eu vejo, curiosamente, “Por que será que o Chico se transforma num sucesso tão grande, superando até os demais daquela época?”. E eu vejo que isso se dá exatamente por isso: suas músicas eram cantadas pelas pessoas. Eram músicas que podiam ser cantadas por quem não conhecesse de música. Por um estudante, por uma rapaziada e, principalmente, pelas moças que adoravam cantar aquelas músicas todas.”.

Essa definição de “hits populares” de Homem de Mello é uma que até o jovem Chico concordaria. Em entrevista para a revista InTerValo ainda em novembro de 1965, o jovem artista explica a importância de compor músicas numa linguagem acessível para todos: “Fazer música popular brasileira é procurar falar com o povo. Fazer samba numa linguagem que o povo não entende é somente ser festivo e isso não existe em música. É necessário fazer músicas com expressões do povo.”.

Nos anos seguintes, Chico expandiu seus trabalhos indo além das composições e apresentações musicais. Em 1967, o cantor performou a canção Roda Viva no Festival de Música Brasileira e, no ano seguinte, a transformou em sua primeira peça de teatro. Apesar de não ter vencido tal edição, a apresentação de Chico junto a roda de instrumentistas é considerada como um dos momentos definidores dos primeiros anos de sua carreira, com o público presente no auditório indo ao delírio. Comumente ligada a política, a canção, segundo Chico, se trata da pressão estrutural realizada pela indústria musical, mesma temática da obra teatral.

Página de diário de Chico Buarque contendo manuscrito da letra de “Roda Viva”. (Fonte: Instituto Tom Jobim)

Escrita por Chico no fim de 1967 e dirigida e montada por José Celso Martinez Corrêa, a peça levava aos palcos a história do cantor Benedito Silva que, através de um empresário, é transformado no ídolo adolescente Ben Silver e consumido pela indústria artística. Crítica direta à indústria cultural, o trabalho pode ser interpretado como um desabafo de Chico, cantor em ascensão nacional no período de escrita, ao supostamente expressar sensações próprias através do texto. Em folhetim divulgado junto a peça, o artista carioca respondeu diferentes perguntas e, entre elas, se estava colocando seu nome em jogo ao escrever uma peça tão distante de seus primeiros trabalhos musicais:

“É um risco necessário. Estou certo de que meu nome como compositor atrairá um público que não há de encontrar o que espera. Mas eu acho que vale a pena romper às vezes com a própria imagem, principalmente quando essa imagem é criada pelo gosto fácil da televisão. Eu não quis fazer “show”, nem mostrar um samba novo. Eu quis fazer teatro na linguagem própria do teatro.”

Apresentada em diferentes capitais, “Roda Viva é instantaneamente considerada progressista e agressiva pelo quão cru é em suas críticas à sociedade brasileira consumista. Em um cenário de tensões políticas cada vez maiores, a peça  se torna símbolo de arte de resistência quando, em julho de 1968, é invadida por vinte homens diferentes do Comando de Caças aos Comunistas (CCC) no Teatro Ruth Escobar, São Paulo, que depredam o palco e agridem os atores. Em setembro do mesmo ano, a peça sofreria um novo atentado, desta vez em Porto Alegre, com o sequestro de dois atores do elenco. Os dois ataques marcariam o fim da peça por 50 anos: Chico só autoriza uma nova versão da mesma em 2018, também dirigida por José Celso.

A pesquisadora Sandra Siebra Alencar é mestre em teatro pela Universidade do Rio de Janeiro, ou UNIRIO. Em seu artigo A Censura versus o Teatro de Chico Buarque de Hollanda, 1968-1978, escrito em 2002, a autora estuda a reação da ditadura e o impacto da censura em diferentes peças escritas por Chico na janela de dez anos. Sobre Roda Viva, Sandra analisa o relatório de diferentes censores, relatando 5 características da peça consideradas imorais do ponto de vista do departamento de censura: imoralidade através de palavrões e gestos obscenos, subversidade pelo posicionamento contra o regime, deboche na falta de respeito aos costumes morais, sensacionalismo pelo desrespeito às autoridades e improvisação por mudarem com frequência o que era considerado proibido.

Em 1998, a Folha de São Paulo escreveu sobre os trinta anos da peça e de seu abrupto fim causado pelo departamento de censura. Na matéria, o jornal relembra a citação direta de diferentes censores da época que apresentaram uma forte oposição, desmoralizando Chico e tratando Roda Viva como algo não artístico. Segundo o então vice-presidente da Assembleia Legislativa: “Aquilo que eu vi e ouvi em ‘Roda Viva’ não pode ser chamado de arte. Aquilo é despudor, aquilo é destruir uma família na sua moral, amolecer uma nação. Aquilo é um bordel, não um palco”.

Roda Viva não foi o primeiro conflito de Chico com o regime militar vigente: no ano anterior, em 1967, o cantor protestou contra o uso não autorizado da música “A Banda” em uma propaganda para alistamento militar, que foi retirada do ar após pedido. Porém, ela representa um dos primeiros momentos políticos significativos do cantor, que já apresentava forte posicionamento político e frustrações com o golpe militar há anos. Roda Viva se tornou símbolo de resistência política no teatro durante a ditadura militar, arte muitas vezes esquecida ao se discutir a influência negativa dos militares nas produções do período. Além disso, o embate precede diferentes conflitos entre Chico e o governo militar que viriam a acontecer nos anos seguintes.

Exílio na Itália

O fim do ano de 1968 representa o início do período ditatorial de maior opressão do país: a instauração do Ato Institucional Nº5. O ato, como explicado, marcou uma suspensão total dos direitos individuais junto ao fechamento do congresso. O cenário era de controle total das autoridades militares, resultando em prisões de opositores à ditadura, censura a imprensa e uso de tortura.

Denominado de anos de chumbo, nesse período se fez presente uma grande perseguição a nomes significativos da música brasileira, principalmente aqueles que possuíam forte posicionamento político, como Chico. Nessa altura, o artista carioca já havia lançado alguns discos, além de se consolidar como um nome conhecido nacionalmente e um dos compositores mais talentosos do país. Apesar disso, a peça Roda Viva faz com que o carioca seja visto com outros olhos pelos militares, podendo ser considerado alguém que promovia a balbúrdia, ideias comunistas e a rebeldia.

Em 18 de dezembro de 1968, Chico foi levado de sua casa para depor no Dops (Departamento de Ordem Política e Social) sobre o conteúdo de algumas músicas. O cantor não foi o único: no mesmo período, Caetano Veloso e Gilberto Gil também foram presos pelo mesmo motivo. Retido por um dia pela polícia e enfrentando um cenário de crescente tensão, tal evento é o estopim principal para que, em 1969, o cantor e sua esposa, a atriz Marieta Severo, decidissem por ficar na Europa após viajarem para uma feira de discos em Cannes, na França.

O casal decide se mudar temporariamente para Roma, na Itália, em um exílio até a situação no Brasil se acalmar. No país europeu, Chico continua o alto ritmo de produções que já eram de seu costume: mesmo com dificuldades na produção devido a distância do país europeu com o Brasil, o artista finaliza seu quarto disco, Chico Buarque de Hollanda IV. Além disso, para se sustentar, o cantor e seu amigo Toquinho acompanham a artista Josephine Baker em uma turnê ao longo do interior da Itália. O encontro dos dois amigos daria início a canção “Samba de Orly”, finalizada posteriormente no Brasil e que, segundo Toquinho, se chama “Samba de Orly” porque era geralmente em Orly, na França, que pousavam os aviões transportando os exilados brasileiros perseguidos pela ditadura daquela época.”

Chico Buarque e Toquinho em foto de arquivo pessoal. (Fonte: Marcos Hermes)

Desse período na Itália se vem o álbum “Per un pugno di samba”, um dos álbuns mais folclóricos de sua carreira. Composto todo em italiano por exigências do mercado, já que no país não se havia o costume das rádios tocarem músicas em outra língua, o trabalho é uma colaboração do artista carioca com o lendário Ennio Morricone, um dos maiores compositores da história do cinema e conhecido por suas trilhas de faroestes. A junção única do samba de Chico com o instrumental de Morricone veio através da tradução de canções já conhecidas ou que viriam a ser lançadas pelo artista brasileiro, como Roda viva (que se tornou Rotativa) ou Funeral de um Lavrador (que virou Funerale di un contadino).

Feito através da parceria arranjada pelo produtor Sergio Bardotti, que traduziu para a língua italiana as canções de Chico, o álbum foi lançado em 1970 com o título fazendo referência a “Per un pugno di dollari”, faroeste clássico de Sergio Leone com trilha de Morricone. Esquecido em sua discografia em um nível popular, o álbum foi lançado pela primeira vez no Brasil em 2002, pelo selo BMG Brasil e, apesar de não disponível nas plataformas de streaming, pode ser encontrado por completo no YouTube:

Em janeiro do mesmo ano, enquanto visitava Lisboa para uma série de shows, Chico foi entrevistado pela revista Fatos e Fotos, estampando a capa da edição com a seguinte frase: “Exclusivo: Chico Buarque em Lisboa revela: vou voltar”. Na entrevista, percebe-se um artista simpático, mas que detalha as diferenças culturais entre o país europeu e o Brasil, o qual o cantor anuncia sua volta para abril daquele ano.

Questionado sobre o ritmo da turnê com Josephine Baker, o cantor demonstra cansaço, ressaltando as dificuldades nas traduções de suas canções e demonstrando preocupação com Caetano e Gil, na época auto-exilados em Londres: 

“Uma das coisas que sempre me preocupou, na Itália, foram as versões de minhas letras. Frequentemente, para que o público aceitasse as músicas, fizeram-se adaptações nem sempre muito fiéis.

Acontece que o público italiano não aceita muito o samba. Pode até ouvir, com prazer, pela rádio, mas não chega a comprar o disco… Por isso é que fico preocupado com o Caetano e o Gil. Com Gil nem tanto, pois sua personalidade de show-man pode lhe garantir sucesso. Mas o Caetano, tão intimista, com uma letra tão profundamente estruturada em termos da língua brasileira, poderá ter as maiores dificuldades.”

Ainda na conversa, Chico, grande fã de futebol, arrisca-se a analisar a estrutura da seleção italiana de futebol, prevendo um confronto difícil na Copa do Mundo que viria a ocorrer no México naquele ano. Por fim, o artista finaliza a entrevista prevendo o futuro da música brasileira, demonstrando uma clara saudades do país e deixando claro como as diferenças culturais o afetaram.

Páginas da revista destacando a matéria de capa, com foto exclusiva de Chico e sua então esposa Marieta Severo. (Fonte: Instituto Antônio Carlos Jobim)

Retorno a um país desconhecido

O que foi prometido se cumpriu com antecedência: em 20 de março de 1970, Chico Buarque e sua esposa Marieta Severo, juntos a filha Silvia, de 11 meses, e a babá Margarita, desembarcaram no aeroporto de Galeão, Rio de Janeiro, no que marcava o retorno do cantor ao país. Naquela sexta-feira, Chico foi recebido com enorme festa por amigos, além da presença de jornalistas e fotógrafos esperando sua chegada. O amigo Altamiro tocou A banda, Betty Faria levou uma bandeira do Fluminense, seu clube de coração, e os jornalistas furaram o bloqueio para pedir alguma fala, com Chico respondendo: “Tinha que vir até aqui, ver os amigos e dar um mergulho na praia.”. Na edição daquele dia, o jornal Folha de São Paulo deu a Chico uma tímida citação em sua capa, no canto inferior direito:

Capa do jornal “Folha de São Paulo” no dia 20 de março de 1970. (Folha de São Paulo)

O retorno de Chico ao Brasil representava a volta de um de seus maiores compositores que, mesmo com apenas 25 anos e pouco mais de 5 anos de carreira, já havia marcado seu nome entre a elite da música brasileira. Sendo o primeiro dos alguns artistas auto-exilados (Caetano Veloso, Gilberto Gil, Geraldo Vandré) a retornar, Chico fica surpreso com a situação que encontra: entre os 14 meses em que viveu na Europa até sua volta, pouco tinha mudado. Um alto índice de nacionalismo se fazia presente através de forte propaganda militar, músicas que exaltavam o patriotismo, como Eu te amo, meu Brasil, e diversas bandeiras e adesivos expostos pela cidade.

Nesse contexto, Chico compôs, nos primeiros anos da década de 1970, uma série de músicas que, direta ou indiretamente, denunciavam a realidade brasileira e a alta censura e violência propagadas pelo regime, consequência do AI-5. Influenciado pelo meio inserido, essas músicas são chamadas popularmente e pela crítica de “canções de protesto”, com muitas delas não sendo aprovadas pelo departamento de censura após suas composições. Em 1970 o artista lança a primeira, Apesar de Você.

Hoje você é quem manda

Falou, ‘tá falado

Não tem discussão, não

A minha gente hoje anda falando de lado

E olhando pro chão, viu

Você que inventou esse estado

E inventou de inventar

Toda a escuridão

Você que inventou o pecado

Esqueceu-se de inventar

O perdão

Apesar de você

Amanhã há de ser outro dia

Eu pergunto a você onde vai se esconder

Da enorme euforia

 

Apesar de Você (1970, Chico Buarque)

Apesar de Você é uma música que denuncia a censura imposta pelo regime, criticando o autoritarismo presente através do “Você” da canção, que pode ser interpretado como o governo ditatorial ou Emílio Médici, presidente em vigor no ano de escrita. Na canção, Chico apresenta diferentes sentimentos: um deles é o otimismo, visualizando a chegada de um amanhã livre desde o refrão (Apesar de você, amanhã há de ser outro dia) até diferentes versos (Você vai ter que ver o amanhã renascer e esbanjar euforia).

Chico também transmite a indignação com o que ocorre ao seu redor, deixando claro na música que, após o fim do regime militar, esses mesmos que estão no poder e abusam da população pagarão por isso: versos como “Quando chegar o momento, esse meu sofrimento, vou cobrar com juros” e “Você vai pagar e é dobrado cada lágrima rolada nesse meu penar” retratam um senso de justiça do artista carioca.

Segundo Wagner Pessoa, Chico se sentia preocupado com a possibilidade da canção não passar pelo departamento de censura. Porém, em primeiro instante, o censor responsável pela análise aprovou a música, que em pouco tempo se tornou hit nacional. Com mais de 100 mil compactos da canção vendidos em uma semana, foi apenas através de uma nota do jornalista Sebastião Nery que os militares perceberam o verdadeiro significado da letra e proibiram sua comercialização. Chamado para depor, Chico justificou que o “você” da letra faria referência a uma “mulher mandona”, o que não acreditaram. A música só voltaria a circular em meios oficiais a partir de 1978, quando, em um contexto de reabertura política nos anos finais da ditadura, o artista a incluiria em seu álbum do mesmo ano.

Disco original compacto da canção “Apesar de Você” lançado em 1970. (Fonte: Acervo Chico Buarque)

A censura tardia não foi suficiente para impedir o sucesso de Apesar de Você, o que irritou os militares e aumentou a perseguição a Chico. Nos próximos anos, outras composições dele serão vigiadas e censuradas sem espaço para debate. Uma delas é Cálice, escrita em 1973, em colaboração com Gilberto Gil. Referência ao versículo bíblico “Meu pai, se for possível, afaste de mim este cálice”, o título da música faz trocadilho com a expressão “cale-se” e o silenciamento imposto pelo regime militar. 

A música trata do sentimento de impotência frente ao regime militar, com ambos pedindo a Deus para ele afastar o silêncio da ditadura, além de utilizarem de metáforas para expressar o “grito encalhado” em suas gargantas e o desespero da falta de mudanças. Composta por Gil, a música seria performada por Chico com Milton Nascimento, não passando pelo departamento de censura e sendo lançada oficialmente apenas em 1978.

Pai (pai)

Afasta de mim esse cálice (pai)

Afasta de mim esse cálice

De vinho tinto de sangue

Como é difícil acordar calado

Se na calada da noite eu me dano

Quero lançar um grito desumano

Que é uma maneira de ser escutado

 

Cálice (1973, Chico Buarque e Gilberto Gil)

Letra de “Cálice” com anotações e o carimbo de VETADO do censor. (Fonte: Reprodução/Internet)

Expandindo-se além da música, outro episódio famoso desse período é o da peça “Calabar: o Elogio da Traição”. Escrita no fim de 1973 pelo cantor em parceria com o cineasta Ruy Guerra, o trabalho seria uma produção musical sobre a história de Domingos Fernandes Calabar, que tomou o lado dos holandeses contra a coroa portuguesa. A peça custou cerca de 30 mil dólares, sendo uma das produções mais caras do período. Mas, apesar das grandes expectativas do público, em outubro de 1974 a peça é vetada pelo general Antonio Bandeira antes mesmo de sua estreia, tendo toda sua divulgação e o nome “Calabar” proibidos. “Calabar: o Elogio da Traição” só viria a ser lançada em 1980, já nos anos de reabertura política.

Poster de divulgação do musical “Calabar: o Elogio da Traição”, lançado em 1973. (Reprodução/Chico Buarque)

A constante censura a seus trabalhos frustrava Chico, que em 1971 já tinha reclamado ao jornal GLOBO: “De cada três músicas que faço duas são censuradas. De tanto ser censurado, está ocorrendo comigo um processo inquietante. Eu mesmo estou começando a me autocensurar. E isso é péssimo”. 

De acordo com Wagner Pessoa em seu livro, havia, entre os censores, uma lista de compositores “proibidos”, com Chico sendo um nome significativo presente. Em seu artigo citado anteriormente, a mestra em teatro Sandra Siebra Alencar apresenta um comentário de censor em relatório sobre Chico, feito em 1973:

“O cantor Chico Buarque, nascido a 19/6/44, ex-aluno de arquitetura da Faculdade Mackenzie. É membro de um grupo  de  cantores  e  compositores  que vem  se  constituindo  num  dos  principais meios de ação psicológica sobre a classe universitária, onde através de pseudos shows divulgam músicas proibidas  pela Censura, em cujas letras denotam objetivamente seu caráter subversivo.”

Nesse contexto, o artista carioca, em 1974, apresenta uma criativa solução para driblar a censura: Chico assina diferentes composições com o nome Julinho da Adelaide, um alter-ego inventado para combater a imediata rejeição que ele trazia aos militares. O artista também inventa uma história de vida para Julinho, que seria um músico carioca da Rocinha que migrou das “páginas policiais para as páginas de música”.

O plano deu certo, com músicas como Acorda, Amor e Jorge Maravilha sendo liberadas pelos censores e atingindo sucesso. E, em 7 de setembro, o mirabolante plano chega ao seu máximo: nessa data, o jornal Última Hora publicou uma entrevista exclusiva realizada com o desconhecido cantor, o qual o público não conhecia nada sobre. 

O que os leitores não sabiam é que a entrevista não era nada mais que algo marcado entre Chico e Mário Prata, jornalista e amigo pessoal do cantor, que aceitou com bom humor a ideia. Na conversa, realizada em sua casa, Chico incorporou o personagem e inventou diferentes histórias, inclusive justificando a falta de fotos de Julinho por uma cicatriz em seu rosto, mas cedendo ao jornal uma foto de sua suposta mãe, que nada mais era que um retrato de arquivo encontrado em uma enciclopédia por Sérgio Buarque. O alter-ego teria seu fim no ano seguinte quando, segundo Wagner, o Jornal do Brasil revelou a identidade de Julinho, o que fez com que a Polícia Federal começasse a exigir o RG e CPF dos compositores para evitar pegadinhas semelhantes.

Entrevista do jornal Última Hora com Julinho de Adelaide. (Reprodução/Folha de São Paulo)

Mas, apesar de todas essas músicas que protestam diretamente contra o regime militar em vigor na época, talvez nenhum trabalho encapsule tão bem as críticas políticas de Chico com sua riqueza e complexidade como compositor como o álbum “Construção”, lançado em 1971. Escrito entre o período que viveu na Itália e os primeiros meses após seu retorno, o disco contém dez faixas que expressam, entre outros assuntos, o descontentamento de Chico com o governo e a frustração com a vida rotineira no Brasil. Músicas como Cotidiano” e “Cordão falam sobre esses temas, com a segunda soando como um desabafo do cantor com as constantes tentativas de censura recebidas:

Ninguém vai me segurar

Ninguém há de me fechar

As portas do coração

Ninguém

Ninguém vai me sujeitar

A trancar no peito a minha paixão

 

Cordão (1971, Chico Buarque)

Professor de sociologia na Universidade de Campinas (UNICAMP), autor e pesquisador, Marcelo Siqueira Ridenti cresceu na década de 1970 ouvindo as faixas de Chico em seu ambiente familiar. Grande fã do artista, o professor afirma enxergar um tom de ambiguidade em suas composições desse período devido ao contraste da produção com o liricismo: 

“É, ao mesmo tempo, ambíguo. Tirando os romances mais recentes, nessa fase, tem muita esperança. Em uma das canções, Cordão, é assim: “Eu não vou renunciar, fugir / Pois quem tiver nada pra perder / Vai formar comigo o imenso cordão / E então quero ver o vendaval, quero ver o carnaval sair.”. 

Adélia Bezerra de Meneses compara essa canção com a Internacional Socialista, e mesmo o Manifesto Comunista, pelo fim do livro. Então se você pegar a letra, tem uma utopia, que quem tem nada a perder vai formar comigo um imenso cordão no futuro, uma sociedade nova. Mas, se você pegar a música, ela é super melancólica, parece que ele está chorando. Então acho que é muito ambíguo, ele tem uma sonoridade meio desesperançosa, mas se você pega a letra da música é de esperança, que todos vão se juntar e formar um grande cordão para derrotar a ditadura, que está subentendida na letra da canção.”

O disco ainda contém Samba de Orly, samba citado anteriormente composto junto a Toquinho e Vinícius. Porém, nenhuma música do álbum merece tanto destaque quanto a faixa título, Construção: nela, a quarta do álbum e canção mais longa do projeto, Chico utiliza de sua criatividade ímpar para contar a história de um trabalhador urbano que morre em um acidente ao cair de uma plataforma alta. Na letra, Chico utiliza versos alexandrinos, ou seja, versos de doze sílabas poéticas em que a 6ª e 12ª sílabas são tônicas.

Amou daquela vez como se fosse a última

Beijou sua mulher como se fosse a última

E cada filho seu como se fosse o único

E atravessou a rua com seu passo tímido

Subiu a construção como se fosse máquina

Ergueu no patamar quatro paredes sólidas

Tijolo com tijolo num desenho mágico

Seus olhos embotados de cimento e lágrima…

 

Construção (1971, Chico Buarque)

Ao longo da canção, Chico reconta a mesma história algumas vezes, invertendo as palavras finais dos versos mas conseguindo manter o mesmo sentido. A produção da música escala na medida que ela avança, com a adição de violino, trompetes e instrumentos de sopro para representar a buzina dos carros, descontentes com o trânsito causado pela morte do trabalhador. E, ao longo da letra, as frases de Construção aumentam e diminuem, representando a parede construída pelo trabalhador.

Construção é um exemplo sublime da evolução de Chico como compositor. A música e o álbum não foram a primeira vez que o artista carioca discute política e problemas do brasileiro médio, porém nada que ele tinha escrito até então tinha atingido uma complexidade lírica tão formidável. A música título é relembrada até hoje como uma das grandes músicas políticas de nossa história pela forma que o compositor discute a relação entre trabalhador e capital e a falta de importância que é dada ao proletariado na sociedade.

Lançado pela gravadora Phillips, o álbum foi um sucesso de crítica e público, vendendo mais de 140 mil discos na primeira semana. Em matéria de 1972, a revista Realidade, em perfil do cantor, afirma que “A demanda de 10.000 discos por dia, nas primeiras semanas, levou a fábrica a contratar duas gravadoras concorrentes para prensá-los, obrigou o pessoal a trabalhar em turnos de 24 horas por dia e o futebol de sábado, rotina de vários anos dos empregados e artistas, ficou suspenso durante quase dois meses.” A revista ainda destaca a qualidade do álbum, com o crítico Walter Silva comentando:

“Construção” é o melhor disco feito nos últimos vinte anos no Brasil. Um desses que se houvesse por ano, em toda a música brasileira, e eu me daria por feliz.”

 

A passagem das décadas apenas consolidou o legado do álbum, considerada uma das unanimidades na rica discografia de Chico – o cantor, em sua totalidade, tem mais de oitenta álbuns lançados. Atualmente, não é difícil encontrar o projeto no topo de rankings da história da música brasileira: em 2009, por exemplo, a revista Rolling Stone elegeu o disco como o 3º melhor álbum brasileiro da história, com a faixa-título sendo considerada a melhor música brasileira da história.

Apesar de sua forte ligação com a arte-política e de ser um dos principais nomes da música contra ditadura, Chico nunca gostou de se definir apenas como um “artista de protesto”. No mesmo perfil realizado pela revista Realidade em 1972, o cantor carioca esclarece sua complexidade, afirmando que “Não sou político. Sou um artista. Quando grito e reclamo é porque estou sentindo que se estão pondo coisas que impedem o trabalho de criação, do qual eu dependo e dependem todos os artistas. Mas se defender a liberdade de criação é hoje um ato político, também não tenho porque fugir dele.”

Já em 1976, o cantor foi entrevistado pela jornalista musical Ana Maria Bahiana em conversa resgatada pelo Blog do Acervo, acervo de matérias antigas pertencente ao jornal O Globo. A conversa é centrada no disco “Meus Caros Amigos”, primeiro lançamento de Chico desde 1973, mas ele também é perguntado sobre os motivos de ter parado de realizar shows ao vivo, além de suas composições e denominações recebidas. Sobre sua escrita, Chico responde:

“A composição é um ofício muito solitário, é uma coisa que sai de repente, de dentro de você, quando você está com você mesmo. Se eu fizesse músicas de outro modo, eu seria o quê? Um compositor de protesto? Eu não sou um compositor de protesto. Não sei bem o que é ser um compositor de protesto. Não faz muito sentido pra mim. Pode ser que eu seja uma pessoa de protesto. Pela carga que há em cima de mim. Mas não é uma atitude minha. As pessoas falam das minhas músicas censuradas. O que será que as pessoas imaginam que há nas minhas músicas censuradas? Muitas vezes não tem nada, há canções de amor, há brincadeiras, coisas que empacam por bobagens, que não têm nada a ver.”

Esses comentários ajudam a entender Chico como um artista político, mas também alguém que enxerga a composição como uma forma natural de se fazer comentários sobre seu meio. Ao afirmar não ser político, mas sim alguém de atos políticos, Chico, enquanto se afasta da possibilidade de ser um salvador nacional, se afirma como alguém que entende o papel da arte em mobilizar massas e a responsabilidade de não se esconder frente a ditadura enfrentada no período. Mais do que um artista, Chico, em toda sua vida, foi uma pessoa política, o que influenciou toda a trajetória de sua arte.

Ao ser perguntado sobre Chico e o alinhamento existente entre arte e política, Marcelo Siqueira defende ser um movimento natural e significativo dessa época, vindo do contexto de forte repressão aos movimentos sociais após golpe de 1964, mas que a cultura deve tanto ser enxergada como algo que possui autonomia própria, como também uma forma de expressão de um mundo ao redor:

A percepção sobre Chico e seu legado, anos depois

Chico fez parte de uma geração de músicos que alcançou o sucesso rapidamente: impulsionados pela indústria cultural da época e a falta de ídolos jovens que incorporavam temas da juventude em seus trabalhos, a década de 1960 representou a ascensão de uma série de cantores no início de seus 20 anos. Iniciando sua carreira como artista por volta de 1965, em dez anos, Chico já era unanimidade nacional e considerado um dos compositores mais talentosos que o país já tinha visto. Em 1972, a revista Domingo juntou o depoimento de vinte e duas pessoas ordinárias sobre Chico, indo de jovens de 17 anos até adultos de 47. Os comentários variam entre os elogios, mas a unanimidade de Chico se mantinha presente em cada fala.  

Recorte de comentários feito sobre Chico Buarque na edição de fevereiro de 1972 da revista Domingo. (Fonte: Instituto Tom Jobim)

Tentar decifrar o enorme sucesso de Chico Buarque não é tarefa fácil e tampouco inédita. No perfil realizado pela revista Realidade neste ano, 1972, a página final traz um gráfico comparando a complexidade sonora da produção média de Chico Buarque com a de Milton Nascimento, consagrado cantor mineiro que, naquele ano, viria a lançar o álbum Clube da Esquina, em parceria com Lô Borges, considerado sua obra-prima e outro dos melhores discos brasileiros já feitos na história.

O texto da revista analisa a progressão de acordes de Chico como básica e lógica em comparação às de Milton, que apresenta um maior número de notas e uma complexidade de instrumento maior. Segundo eles:

“Pode-se ver como Chico emprega muitos acordes preparatórios, em cor rosa no gráfico, seguindo a harmonia barroca, bastante usada na música popular, pouco usada na música erudita do século XX e totalmente ausente do jazz. Nela, o acorde preparatório quase obriga ao acorde seguinte, criando uma tensão que leva a uma solução harmônica lógica, caindo no acorde principal, a tônica. Os acordes empregados são os básicos, sem nenhuma nota dissonante.”

Gráficos comparando a progressão de acordes em canções de Chico Buarque e Milton Nascimento. (Fonte: Instituto Tom Jobim)

Portanto, alguém pode ler a análise e interpretar o gráfico como um testamento da simplicidade instrumental de Chico em contraste a riqueza de suas composições. Apesar disso, tratar o artista como um músico limitado não me parece correto: Chico é um artista em um momento único da arte brasileira, sendo uma espécie de representante de um pós-bossa nova que evolui do samba de marcha para obras mais complexas em seus primeiros anos de carreira. Não só isso, como o violão de Chico, por mais simples que pareça, complementa e casa a riqueza de seus versos com uma naturalidade assustadora.

Em conversa com o professor Marcelo Siqueira Ridenti, o mesmo foi questionado sobre como ele destacava a importância de Chico Buarque e, em sua visão, qual a diferença do artista carioca para tantos outros de sua época. Segundo ele, não se deve destacar apenas uma resposta a essas perguntas, mas sim a soma de diferentes fatores que transformaram Chico em ícone:

 

Cleber Facchi é crítico musical há mais de uma década, escrevendo pro portal Música Instantânea e cobrindo diferentes gêneros. Ao ser perguntado sobre a importância de Chico Buarque para uma nova geração de artistas, Cleber responde que vê o cantor sendo uma das bases precursoras do que temos de atual em nossa música, vendo paralelos entre gêneros como samba para o rap, por exemplo:

Sobre a leva de artistas com forte posicionamentos políticos da década de 1960 para 1970, a qual Chico se inclui, Cleber vê uma importância atemporal, ressaltando que, mesmo que a influência na geração atual seja mais indireta, a importância desses posicionamentos “reverberam até hoje, com ecos daquela geração passando em frente”:

É inegável que, ao longo dos seus 60 anos de carreira, Chico tenha se transformado em um dos artistas mais ricos da história do Brasil: seu extenso trabalho gira em torno de oitenta obras, contando discos, contos, livros, peças teatrais, participações no cinema e mais. Eterno progressista, Chico se tornou referência em composição musical brasileira, recebendo o prêmio Camões em 2023 por sua contribuição à literatura. Já na virada de 1999 para 2000, a revista IstoÉ realizou uma votação para definir o músico brasileiro do século XX, o qual Chico Buarque saiu vencedor.

(Reprodução/IstoÉ)

Referências:

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