AS DIFERENTES FACES DE UM REI

Roberto Carlos não se tornou o rei da música brasileira por acaso. Nascido em 1941 e natural de Cachoeira do Itapemirim, Espírito Santos, o cantor, aos 6 anos de idade, se envolveria em um acidente que mudaria sua vida: ao se posicionar próximo ao trilho do trem para ver a passagem de um desfile escolar de banda, Roberto não ouviu a chegada do trem na locomotiva e, apesar da tentativa do maquinista em frear, acabou sendo atingido e arrastado. Ao ser levado com urgência ao pronto socorro, o menino precisou ter parte de sua perna amputada. Recuperando-se do acidente, ele foi impedido de participar de atividades físicas, voltando suas atenções para a música.

Praticando desde novo, Roberto teve uma rápida evolução musical, passando pelo piano e violino até chegar ao violão. Cantando em rádios locais desde os nove anos, o jovem se mudou ao Rio de Janeiro no início da década de 1950, com 12 anos, para estudar. Crescendo no estado, o cantor vive em primeira mão a febre rock & roll, cada vez mais forte em países no exterior e que chega ao Brasil majoritariamente através do cinema. Apesar de seu início como um gênero musical, o rock do período se expande como um movimento cultural jovem, representado através de novos ícones, maneiras de se vestir e se comportar. De repente, calças em boca-de-sino, jaquetas de couro e demais elementos foram adaptados à cultura brasileira e apresentados a Roberto.

No Rio de Janeiro, o jovem caminha ao estrelato em sua carreira de cantor, formando bandas como The Sputniks, iniciada em 1956 e que chegou a juntar o artista a Tim Maia, futuro ícone da música brasileira, em grupo que ambos foram vocais de fundo. Estudando e se apresentando em programas locais, Roberto acaba recebendo a alcunha de “O Elvis Presley brasileiro” no Clube do Rock, e, através de sua banda, conhece Erasmo Neves, amigo de vida com o qual compartilharia canções, composições e até sobrenome: Erasmo trocaria o Neves pelo Carlos por uma escolha artística e sonora.

A rápida ascensão com a Jovem Guarda

Na década de 1960, adulto, Roberto emplaca sua primeira sequência de sucessos no país: Splish Splash, É Proibido Fumar e, mais notoriamente, O Calhambeque, que assume o 1º lugar nas paradas brasileiras em outubro de 1964 de acordo com a IBOPE (Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística). Em 1965, já famoso, chega o convite que mudaria sua vida: ao lado de Erasmo Carlos e Wanderléa, Roberto se torna apresentador do programa Jovem Guarda, exibido pela TV Record. Criado pela emissora a partir da necessidade de um programa jovem que competisse com outros canais e suprisse a falta de futebol paulista daquele ano na grade, o show semanal, gravado em São Paulo, torna-se um sucesso imediato e eleva o status de Roberto a ídolo nacional, estabelecendo a terminologia Jovem Guarda ao jovem gênero musical influenciado pelo rock exterior e fazendo com que o hit O Calhambeque seja tocado mundialmente.

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Auditório do programa “Jovem Guarda”, exibido pela TV Record de 1965 até 1968. (Foto: Arquivo/Estadão)

Em 1966, a revista Realidade realizou um perfil sobre a febre da Jovem Guarda e do jovem artista. A reportagem “Vejam Quem Chegou de Repente”, escrita por Narciso Kalili, trazia a descrição de um dia do cantor no programa junto ao depoimento de diferentes pessoas, procurando entender a comoção em torno do cantor. A matéria fala, com detalhes, da euforia que milhares de meninas sentiam por suas canções e a maneira que Roberto era enxergado como um modelo de homem moderno por jovens rapazes. Nas conversas com ele, o perfil destaca um jovem que, em contraste a extravagância e carisma dos palcos, é tímido por trás deles, geralmente conversando apenas com pessoas mais próximas e utilizando de um drink alcoólico antes do programa para criar coragem.

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A capa da revista apresenta uma jovem fã utilizando camiseta com rosto do cantor. (Foto: Acervo Pessoal/Revista Realidade)

A matéria mescla depoimentos de adolescentes e jovens adultos, que se sentiam representados pelas composições e quebra de padrões do cantor, além de pessoas mais velhas, muitas das quais não entendiam muito bem o surgimento desse novo gênero, bem diferente dos movimentos musicais que estavam acostumados. Entre o segundo grupo, destaca-se a fala de um professor universitário que, sem saber, prevê parte de um desafio que acompanhará Roberto nos próximos anos: a dificuldade em penetrar sua arte nas camadas mais intelectuais.

O professor, resumidamente, na época, apresenta desprezo pelas músicas de Roberto, as caracterizando como bobas, feitas para adolescentes (Ou “garotinhos”, em sua citação direta) e, com certo deboche, celebra o fato que, em sua faculdade, os alunos não possuem o costume de escutá-las. Tal informação não é à toa: durante esse período, a classe universitária brasileira se encontra mais engajada com os festivais de Música que trazem a Música Popular Brasileira (MPB) e precedem o tropicalismo dos anos seguintes.

Foto: Acervo Pessoa/Revista Realidade

Jornalista e crítico musical, Cleber Facchi trabalha há mais de uma década com o que há de mais interessante no cenário musical brasileiro e internacional. Seja em seu site Música Instantânea ou no podcast Vamos Falar Sobre Música?, o jornalista está constantemente cobrindo novos lançamentos ou debatendo artistas e álbuns clássicos.

Ao ser perguntado se ele acredita que, nesse período de transição de década, havia uma certa desconsideração da crítica especializada com o trabalho de Roberto, Cleber responde que sim, mas que há mais similaridades na obra de cantor com trabalhos aclamados, como os tropicalistas, do que se imagina:

 

Público em show de Roberto Carlos, 1966. (Foto: Arquivo/Estadão)

No ano de 2005, o programa Clube do Fã, na TV Bandeirantes, levou ao ar uma reportagem sobre o cantor e os quarenta anos da Jovem Guarda na Record. Narrado por Otaviano Costa, o trecho de dois minutos e dezenove segundos da matéria se encontra disponível no YouTube. Neste corte, podemos ver gravações de apresentações do artista na Jovem Guarda: na década de 1960, diversos incêndios afetam diferentes emissoras brasileiras, destruindo diferentes acervos. Nesse período, a TV Record, lar do programa Jovem Guarda, sofreu cinco incêndios diferentes, dificultando o acesso às gravações do programa e tornando de grande valor os vídeos disponíveis.

Nos cortes, podemos ver um extravagante Roberto levando o público presente à loucura com canções como a já citada O Calhambeque, Lobo Mau e É Papo Firme. Nesta fase do artista, temos o cantor e compositor expressando uma mudança de comportamento da juventude, discutindo em suas músicas temas como relacionamentos, busca por independência, autonomia e a visão masculina sobre a crescente emancipação feminina da época.

Ela adora uma praia e só anda de minissaia

Está por dentro de tudo e só

Namora se o cara é cabeludo

Essa garota é papo firme, é papo firme

É papo firme se alguém diz que ela está

Errada, ela dá bronca, fica zangada

Manda tudo pro inferno e diz

Que hoje isso é moderno

É Papo Firme (1966, Roberto Carlos)

Outro tema recorrente nas composições da época são automóveis. Indiretamente, pode-se interpretar o interesse da Jovem Guarda por carros como um fascínio pela evolução tecnológica presente e a vontade de portar o melhor e mais moderno disponível. Além disso, há também a assimilação da velocidade e a necessidade de estar sempre à frente. Durante a reportagem da revista Realidade, Roberto, em uma linha, resumiu seu sentimento sobre os mais modernos carros disponíveis:

Foto: Acervo pessoal/Revista Realidade

Em agosto de 2015, o portal Uol resgatou uma matéria da Revista Manchete, publicada em dezembro de 1966. Nela, a revista ousou, em uma entrevista, juntar Roberto com dois nomes de impacto da MPB: Chico Buarque e Geraldo Vandré. A conversa entre os dois demonstrava a aproximação e as diferenças de Roberto, então rei do iê-iê-iê , com dois dos maiores compositores da dita música nacional, mais crítica e política. O título da matéria, “A Frente Ampla da Jovem Guarda”, já brincava com isso: Frente Ampla, na política nacional, foi o título dado ao grupo formado por Carlos Lacerda com Juscelino Kubitschek e João Goulart, que eram de espectros opostos tal como Roberto, Chico e Vandré numa perspectiva musical.

A matéria alternou entre um clima descontraído e momentos mais tensos. Além das diferenças econômicas (Chico e Geraldo brincaram com o enorme cachê recebido por Roberto em seus shows e programa), a conversa tem como destaque a tentativa de trazer Roberto para o lado da MPB, o convidando a realizar músicas nesse sentido. Em diversos momentos, ambos os artistas da música nacional fazem provocações convidando o rei da música a se aventurar nesse gênero, com Geraldo chegando a perguntar: “Você não acha que o grande prestígio que tem, colocado a serviço da música popular brasileira, traria um grande benefício para ela?”. Hoje, a entrevista entre os três pode ser vista como um importante recorte social da visão que já havia sobre as canções de Roberto no período, além da insatisfação com a neutralidade sociológica presente em sua arte devido a seu enorme sucesso.

Geraldo Vandré, Roberto Carlos e Chico Buarque na capa da matéria da Revista Manchete (Fonte: UOL)

Nos anos que finalizam a década de 1960, Roberto Carlos se consolida como um cantor de popularidade sem igual no continente. O cantor expande sua dominância em vendas em toda América Latina ao lançar versões em espanhol de canções que já eram febre no Brasil além de se aventurar no cinema, lançando o filme “Roberto Carlos em Ritmo de Aventura” no ano de 1967 acompanhado da trilha sonora de inéditas da obra. O artista ainda brinca com seu status de mais popular em seu álbum de 1968: o título “O Inimitável” inventa uma palavra para brincar com os diferentes cantores que tentavam copiar estilos, trejeitos e timbre, mas sem mesmo sucesso.

Roberto Carlos em retrato próprio, tirado durante a década de 1960. (Foto: Site Roberto Carlos )

Roberto na década de 1970

Adentrando a década de 1970, Roberto continuou em alto ritmo de produção, mantendo a já existente tradição de um álbum de canções inéditas por ano. Além disso, nesse período, o artista lança duas sequências ao seu longa-metragem de 1967: Roberto Carlos e O Diamante Cor-de-rosa e Roberto Carlos a 300 Quilômetros por Hora, lançados em 1970 e 1971, respectivamente. Ambos os filmes lideraram as bilheterias nacionais em seus anos de lançamento, cada um levando mais de dois milhões de espectadores ao cinema.

Roberto Carlos em imagem do pôster do filme “Roberto Carlos em Ritmo de Aventura”. (Foto: United Artists)

O cantor também se aventura na produção de trilhas sonoras se juntando a seu amigo Erasmo nas composições do filme “Os Machões”, de 1972. Em 1974, o artista chega a um acordo com a Rede Globo de Televisão para a transmissão de um show televisionado de final de ano. O evento é um sucesso de audiência, tornando-se tradição anual no canal.

Cada vez mais popular, Roberto se consolida como uma figura não só intocável na música brasileira e latina como também uma atração global. Em abril de 1970, o artista se apresenta no programa italiano “Speciale Per Voi” (Algo como “Especial Para Você”, em tradução livre). Em sua participação, Roberto, sentado com seu violão, esbanja carisma ao falar a língua local e contar histórias de sua trajetória, responder perguntas do público presente e cantar “Namoradinha de um Amigo Meu” e arriscar uma versão de “As Flores do Jardim de Nossa Casa” em italiano.

Com diferentes trabalhos, esse período retrata uma mudança de direção artística na carreira do cantor. Desde seu álbum de 1969, Roberto vinha se afastando do típico rock e iê-iê-iê que o consolida em primeiro lugar. Nessa nova década, haverá a consolidação disso, com o artista prezando por composições românticas mais maduras, deixando para trás os bordões da Jovem Guarda. Além disso, há a presença de músicas específicas, tratando de problemas imaginados pelo cantor e certas melancolias.

Em seu disco de 1971, o cantor já começa a apresentar essas canções fora do então usual: a música Traumas traz Roberto refletindo sobre dores do passado ao lembrar-se de conselhos recebidos pelo seu pai na infância. Em Todos Estão Surdos, do mesmo álbum, Roberto demonstra desilusão com o estado brasileiro ao seu redor, suplicando pela sua religião e o retorno de Jesus Cristo.

Outro dia, um cabeludo falou

“Não importam os motivos da guerra

A paz ainda é mais importante que eles”

Esta frase vive nos cabelos encaracolados

Das cucas maravilhosas

Mas se perdeu no labirinto

Dos pensamentos poluídos pela falta de amor

Muita gente não ouviu porque não quis ouvir

Eles estão surdos

Todos Estão Surdos (1971, Roberto Carlos)

Já no álbum do ano seguinte, o décimo de sua carreira, a canção O Divã demonstra um Roberto em crise existencial ao lembrar-se de sua família e as recordações do acidente que o fez amputar parte da perna. O título da música faz referência direta ao móvel de mesmo nome, relacionada a psicanálise e sessões de terapia pelo qual o cantor estaria passando na letra.

Relembro bem a festa, o apito

E na multidão um grito

O sangue no linho branco

A paz de quem carregava

Em seus braços quem chorava

E no céu ainda olhava e encontrava esperança

De um dia tão distante

Pelo menos por instantes

Encontrar a paz sonhada

Essas recordações me matam

Por isso eu venho aqui

O Divã (1972, Roberto Carlos)

Durante esses anos, era comum o cantor ser questionado sobre essa suposta nova direção artística em entrevistas, o qual ele não citava como uma mudança radical diretamente. Em 1973, ao conversar com Antonio Carlos “Bolinha” Pereira, radialista local de Joaçaba, Santa Catarina, Roberto foi perguntado sobre as mudanças em sua carreira desde 1967, o qual o cantor respondeu: “Musicalmente falando, de uma forma especial, acho que minha mudança foi muito gradativa, naturalmente eu não tive uma mudança radical. Algumas coisas se transformaram, mas não poderia dizer que minha música e o que eu faço mudou. Se transformou de acordo com os anos e com minha mentalidade que mudou um pouco, naturalmente.”

Já com mais de 30 anos, vemos Roberto creditar as mudanças em sua carreira mais a um percurso natural de uma maturidade em si como pessoa do que algo intencionalmente proposto. Com o foco no romantismo já citado anteriormente, o cantor, nessa conversa, ainda credita a linguagem do amor como sua ponte de comunicação a juventude dos anos 70:

Outros exemplos de ligação de Roberto com o governo ditatorial podem ser encontrados: no fim da década, em 1979, o cantor recebe uma rara concessão para criação de rádio em meio ao período militar. Além disso, há diversos textos em diferentes portais discutindo esse delicado aspecto da carreira do artista. Entre os que o criticam pela sua neutralidade, é comum ler que o artista, por sua extrema popularidade e caráter apolítico em canções (diferente dos grandes nomes da MPB), foi usado pelos governos militares como forma de aproximar o regime à população jovem brasileira.

Roberto Carlos recebendo medalha de honra do exército militar brasileiro.

Apesar disso, nesse período da carreira de Roberto, é possível encontrar algumas músicas e composições de sua autoria que, mesmo de forma indireta, demonstram sentimentos conflituosos com o que acontecia ao seu redor. É o caso da canção Debaixo dos Caracóis dos Seu Cabelo, incluída em seu álbum de 1971. Feita após o cantor e sua esposa visitarem Caetano Veloso na Inglaterra devido a seu exílio, Roberto escreve a música como uma delicada homenagem a seu amigo, expressando a insatisfação de Caetano com a situação absurda e imaginando a emoção de seu retorno ao Brasil, que ocorreria no ano seguinte:

Um dia a areia branca

Seus pés irão tocar

E vai molhar seus cabelos

A água azul do mar

Janelas e portas vão se abrir

Pra ver você chegar

E ao se sentir em casa

Sorrindo vai chorar

Debaixo dos caracóis dos seus cabelos

Uma história pra contar de um mundo tão distante

Debaixo dos caracóis dos seus cabelos

Um soluço e a vontade de ficar mais um instante

 

Debaixo dos Caracóis dos Seus Cabelos (1971, Roberto Carlos)

Roberto Carlos e Caetano Veloso em especial do programa Fantástico, 1975. Amizade de longa data geraria a música “Debaixo dos Caracóis de Seus Cabelos”. (Foto: TV Globo)

Roberto Carlos e a ditadura

A transição da década de 1960 para 1970 representou o período mais pesado da ditadura militar brasileira. A instauração do Ato Institucional Nº5 (AI-5), em dezembro de 1968, significava um momento de intensa perseguição, prisão e tortura à aqueles que se opunham contra o regime presente. Como demonstrado na introdução, esse momento afetou diretamente diferentes movimentos artísticos e culturais no país, com cineastas, compositores, artistas do teatro e mais sofrendo uma forte censura em suas artes.

Na música brasileira, temos como casos mais significativos os cantores da Música Popular Brasileira (MPB) que, por prisões e constantes perseguições do governo militar, se exilaram em países estrangeiros no ano de 1969, se afastando da ditadura até que o momento se acalmasse. Chico Buarque se muda para Roma, onde passaria um ano, Caetano Veloso e Gilberto Gil, após serem presos e soltos, se exilaram na Inglaterra. Ambos retornaram ao país em 1972, com Caetano tendo gravado o aclamado álbum “Transa” em terras inglesas.

Com a passagem do tempo, aumentou-se a discussão do posicionamento de Roberto Carlos durante o período ditatorial, debate presente até hoje em redes sociais. Na década de 1970, o artista, próximo dos 30 anos e casado, espelha um momento de amadurecimento pessoal com canções reflexivas e românticas. Apesar disso, é fato que, desde seu surgimento, Roberto recebia contestações sobre os conteúdos de suas músicas: se durante a Jovem Guarda ela poderia ser vista como banal e resultado da necessidade de se criar um ídolo jovem, nessa nova década ela poderia ser interpretada como alienada e próxima ao regime militar.

Tais comentários não são à toa já que, durante esse período, Roberto não só não criticou o governo militar diretamente como aceitou participar de uma variedade de eventos proporcionados pelo mesmo. Em 1971 e 1972, o artista cantaria nas Olimpíadas do Exército, disputada exclusivamente por militares brasileiros. No ano seguinte, 1973, o cantor receberia do general Humberto de Souza Mello a Medalha do Pacificador, dedicada a aqueles que contribuíram em algum nível com o exército nacional. Já em 1975, em um evento em Viña do Mar, Chile, o cantor saudaria Augusto Pinochet, então ditador chileno:

Outro exemplo é a música É Preciso Dar Um Jeito, Meu Amigo. Performada por Erasmo Carlos para o álbum “Carlos, Erasmo”, de 1971, a canção é escrita em colaboração de Roberto com seu amigo de longa data. Nela, ambos abordam a necessidade de mudanças em meio a um cenário de caos, utilizando da metáfora de um homem viajante para reforçar a importância de se posicionar contra injustiças, expressando a vontade de fazer algo.

Letra da música para aprovação no departamento de censura. (Foto: Noize)

Extremamente aclamada, a música foi utilizada como tema do filme “Ainda Estou Aqui”, dirigido por Walter Salles e vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2025. A obra retrata a história da família Paiva, com a prisão e desaparecimento de Rubens Paiva em meio aos anos de chumbo da ditadura e a busca de sua esposa, Eunice Paiva, por justiça. Segundo matéria da Veja, desde o lançamento do longa-metragem, a canção encontrou um redescobrimento entre a plateia, tendo um aumento de 220% nas reproduções na plataforma de streaming Deezer e 455% no Spotify.

Ambas as músicas, Debaixo dos Caracóis de Seus Cabelos e É Preciso Dar um Jeito, Meu Amigo, são exemplos de canções escritas durante os anos de maior repressão da ditadura onde, indiretamente, o artista retrata situações ao seu redor influenciadas pelo regime militar. As composições servem como exemplo de trabalhos onde Roberto demonstra algum nível de solidariedade com a forte opressão política do período, podendo afastar a ideia de alienamento integral ao artista.

Marcelo Siqueira Ridenti é professor de sociologia na Universidade de Campinas (UNICAMP), autor e pesquisador de movimentos culturais ligados à política. Nascido em 1959, Marcelo cresceu em meio ao Brasil da década de 1970 e foi perguntado sobre como ele enxerga a arte de Roberto. Na resposta, o autor explica um pouco de seu distanciamento inicial ao cantor, citando a saudação de Roberto ao ditador chileno Pinochet, mas também reflete sobre como ele enxerga esse período de sua carreira atualmente:

 

“O Roberto Carlos eu não gostava tanto, mas eu tinha primos que gostavam e ouviam dia e noite, então aprendi e sei cantar várias canções. Mas nós tínhamos, na época, certa distância porque ele era tido como alienado, o que é mais ou menos verdade. Se você olhar na internet, não sei se já pesquisou, tem um vídeo de quando o Roberto Carlos foi cantar, nos anos 1970, em Viño do Mar, e estava o Pinochet na plateia. Ele faz um agradecimento… o Roberto Carlos agradecendo a presença do Pinochet no show dele. Então era alguém que não era considerado politizado, dizia que não tinha nada a ver com política, não gostava.

Mas, olhando de hoje, eu vejo que o Roberto Carlos, se você prestar atenção nas músicas, embora não fosse politizado, elas, de alguma maneira, expressavam o que estava acontecendo. Pega a letra de “Jesus Cristo”: o cantor diz, numa entrevista, que ele teve essa visão olhando a multidão em Ponta Grossa. Mas ele fez essa música em 1969, depois de todas as manifestações de rua de 1968, e o que ele está dizendo ali: “olho pro céu e vejo essa nuvem branca / e olho pra terra e vejo uma multidão que vai caminhando / e qual é a solução para multidão? É rezar para Jesus Cristo”. Ele está vendo a multidão passar, atento ao que se passa.”


O professor também citou o trecho “Eu quero crer na paz do futuro / Eu quero  ter um quintal sem muro / Quero meu filho pisando firme”, da canção Eu Quero Apenas, referindo-se a esperança do cantor em um futuro mais pacífico no país. Além disso, Marcelo cita o sucesso de É Preciso Dar um Jeito, Meu Amigo, apresentada para novas gerações através do filme Ainda Estou Aqui:

Ao ser perguntado sobre como ele enxerga a abstenção política de Roberto, Cleber Facchi respondeu que vê uma neutralidade do cantor em diferentes aspectos de sua vida para manter uma imagem acessível, o que não é diferente na política. Segundo ele:

“Eu acho que, mais que um cantor de renome e o maior vendedor de discos da música brasileira, o Roberto Carlos é, antes de músico, um empresário. Desde a Jovem Guarda e até mesmo antes, ele era um cara com uma visão de negócios muito apurada. Quando ele começa a participar das rádios no Espírito Santo, ele já conquista um espaço radiofônico e negocia seus direitos. No programa da Record, além de um salário maior que o de Erasmo (Carlos) e Wanderléa, ele tinha uma participação nos lucros. Roberto sempre foi um cara que pensou mercadologicamente sua carreira.

Partindo desse princípio, ele sempre tentou ser a pessoa mais neutra possível para agradar a todos. Por conta disso, ele tem a questão de fazer uma linguagem muito universal, que vai agradar todas as classes possíveis e naturalmente o catapultou ao estrelato. Por isso, ele sempre se absteve de questões políticas assim como se absteve de várias outras questões polêmicas em sua carreira. A política é mais um dos tópicos onde ele se manteve neutro.”

 

Apesar disso, o jornalista ainda afirma acreditar que tal neutralidade pouco afetou sua imagem pública no período e que a relação entre artistas e a ditadura militar é mais complexa do que pode parecer em primeiro instante:

 

Roberto Carlos em retrospecto

Roberto, por onde passou, sempre chamou atenção e dividiu opiniões. Do jovem artista rosto de um movimento que expressava juventude até o experiente cantor ainda tão marcante e idolatrado por toda uma geração, o cantor completou 84 anos em abril de 2025 e ainda está em atividade. Ao ser questionado se, em uma era de serviços de streaming e catálogos de música mais acessíveis que nunca, ele acredita que há um aumento na procura dos trabalhos de Roberto e outros artistas da época, Cleber respondeu que:

 

“Não sei se aumentou. Eu sinto que são (Roberto e outros) artistas medalhões da música brasileira, então é natural que, de geração em geração, alguém vá acabar descobrindo esses artistas, mas eu acho que, pro grande público, não aumentou… Eu acho que a audiência não acompanhou Roberto Carlos. É o mesmo público daquela geração, e permanece assim.”

 

Baseado no estudo de sua carreira, podemos interpretar o legado de Roberto como algo orgânico, passado muitas vezes através de gerações de famílias, mas ainda com alguma dificuldade em se penetrar por classes mais jovens. Roberto sempre foi um artista de extremos, de enorme popularidade mas também com certa rejeição em diferentes grupos, e isso não se alterou com o tempo, como mostra uma pesquisa de 1997.

Na pesquisa intitulada “Pertinência e Música Popular- Em Busca de Categorias Para Análise da Música Popular Brasileira”, a autora Martha Tupinambá de Ulhôa buscou filtrar o que se entendia por MPB e, a partir disso, ofereceu um questionário para diferentes alunos da classe de História da Música Popular Brasileira do Instituto Villa-Lobos da UNIRIO, no segundo semestre do ano. O questionário propunha quatro perguntas pedindo indicações de artistas de MPB que os alunos gostavam e que não gostavam. Entre as 298 respostas que, em sua maioria, foram enviadas por homens universitários de 19 a 29 anos, Roberto foi considerado o oitavo cantor de maior prestígio, mas também o sexto de maior rejeição. A pesquisa completa pode ser encontrada em: https://seer.unirio.br/coloquio/article/download/36/5

Tal pesquisa é apenas mais um exemplo de como, com a passagem do tempo, Roberto ainda é enxergado nos mais extremos possíveis da música brasileira: de um lado, ídolo de uma geração, cantor mais famoso da história do Brasil e dono de diversos hits que marcaram a vida de pessoas de todo o país. De outro, artista datado, com uma falta de posicionamentos na ditadura e uma afinidade com o exército brasileiro da época. Com isso, podemos entender Roberto como um artista que, em seu imenso catálogo, possui uma complexidade de temas e posicionamentos, havendo diferentes facetas de um rei que sempre buscou a neutralidade a fim de manter sua imagem com os mais diferentes grupos possíveis.

Referências:

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BITTENCOURT, Julinho. Os 80 anos do “rei” Roberto Carlos e seus afagos às ditaduras do Brasil e do Chile. Revista Fórum, 2021. Disponível em: https://revistaforum.com.br/cultura/2021/4/19/os-80-anos-do-rei-roberto-carlos-seus-afagos-s-ditaduras-do-brasil-do-chile-95543.html. Acesso em: 25 de abril de 2025.

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CALIL, Ricardo. O dia em que Chico Buarque tentou “roubar” Roberto Carlos do rock. UOL, 2015. Disponível em: https://musica.uol.com.br/noticias/redacao/2015/08/22/o-dia-em-que-chico-buarque-tentou-roubar-roberto-carlos-do-rock.htm. Acesso em: 3 de abril de 2025.

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CRUZ, Felipe Branco. O que pensava Erasmo Carlos sobre sua música que voltou às paradas. Veja, 2025. Disponível em: https://veja.abril.com.br/coluna/o-som-e-a-furia/o-que-pensava-erasmo-carlos-sobre-sua-musica-que-voltou-as-paradas. Acesso em: 28 de abril de 2025.

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